A Edição Corpo: interesses comerciais e intenção
A moda diz acreditar em inclusão e representatividade — mas será que acredita mesmo?
A moda diz acreditar em inclusão e representatividade, mas, segundo os dados, ambas estão em seu nível mais baixo da história. Marcas voltadas aos tamanhos grandes, como a Chromat, encerraram as atividades; estilistas como Karoline Vitto tiveram de parar de produzir tamanhos maiores porque não conseguem arcar com os custos; e, de acordo com o mais recente relatório sobre inclusão de tamanhos da Vogue Business, 97,6% dos looks das passarelas de primavera/verão 2026 eram de tamanhos padrão.
Nas conversas com especialistas como Vitto, a diretora de casting Chloe Rosolek e a crítica Kim Russell, uma ideia se impõe: inclusão era uma grande palavra de ordem em 2018, mas algo mudou entre 2022 e 2023.
“Senti uma mudança. De modo geral, no casting, muitas modelos da indústria tinham emagrecido muito”, relembra Vitto. Rosolek acrescenta: “Acho que a ascensão dos medicamentos GLP-1 expôs o quanto esse progresso era performático”, sugerindo que a moda defendia a inclusão até perceber que não precisava fazê-lo.
É tentador atribuir todas essas mudanças ao atual ciclo estético dos corpos magros e encerrar a discussão por aí. Mas a realidade comercial por trás disso é mais profunda. A indústria do luxo está em queda; vivemos uma recessão global e, no fim das contas, todos buscamos formas de ganhar dinheiro e, mais importante, de preservá-lo.
Como estilista que precisa manter os custos sob controle, Vitto explica isso da melhor forma. “Isto é um negócio, e algumas pessoas vivem dele. Temos de responder ao que os clientes estão comprando e ao momento que vivem.” A estilista conta que a marca costumava oferecer uma grade de tamanhos mais ampla, mas, devido à mudança no tamanho das clientes e à crescente popularidade dos GLP-1, “[she] deixou de produzi-los porque [she] simplesmente não conseguia mais arcar com o custo.”
Decisões guiadas por custos não se limitam às compras: elas também se manifestam em um dos momentos mais importantes do calendário, a semana de moda. Segundo Vitto, “a forma mais econômica e viável de realizar um desfile é ter todas as peças cortadas no mesmo tamanho. Esse é o verdadeiro motivo pelo qual os desfiles não são inclusivos. Não é necessariamente que as marcas não queiram diversidade… é uma questão de custo.”
Então, se a moda não mostra tamanhos maiores e eles deixam de ser produzidos, como conseguimos vê-los?
A visibilidade é parte crucial da representatividade comercial e editorial — e, para a stylist Jeannie Annan-Lewin, é aí que o problema começa. “A visão pode ser ambiciosa, mas, se as roupas não existem nos tamanhos certos, o trabalho criativo fica imediatamente limitado”, observa.
Mesmo quando as roupas existem, surge outra camada de complexidade ao considerarmos styling e intenção. Corpos e roupas passam, então, pelo olhar do fotógrafo, do diretor criativo e do stylist, cada um podendo ter uma ideia diferente de como algo ou alguém deve ser apresentado. “Corpos maiores costumam ser produzidos e fotografados de maneiras que os minimizam: em alfaiataria oversized, poses fechadas, braços cruzados ou silhuetas que achatam, em vez de celebrar, as formas”, acrescenta Annan-Lewin.
E quando a inclusão é levada em conta… como saber se ela é genuína? Segundo os resultados da nossa pesquisa com o público, 78% acreditam que o impulso da moda em favor da inclusão corporal é, em grande parte ou quase inteiramente, uma estratégia de marketing. Além disso, nossa pesquisa sugere que homens têm oito vezes mais probabilidade de acreditar que ela é genuína do que mulheres — um dado que merece atenção, já que a maioria dos diretores criativos do luxo é composta por homens.
Ainda assim, há antídotos para esses desafios e mudanças a celebrar. A popularidade crescente de semanas de moda inclusivas, como a de Copenhague, críticos de moda independentes conquistando espaço diante de publicações maiores e conversas cada vez mais frequentes sobre o impacto de estilistas mulheres são indícios disso.
Além de Vitto, novos nomes da indústria estão abrindo caminho e defendendo uma representatividade duradoura. Rosolek cita Ellie Misner e Sinéad O’Dwyer entre as poucas pessoas que “demonstram de forma consistente como pode ser uma inclusão autêntica”.
Fora das marcas e dos estilistas, alguns dos trabalhos mais impactantes acontecem completamente longe das passarelas. Criadores e comunidades plus size construíram sua própria economia de informação em torno de caimento e construção das peças, fazendo testes sinceros de vestibilidade e resenhas que os fãs de moda merecem. Vitto aponta esses criadores de conteúdo on-line como uma ferramenta poderosa para uma mudança significativa e explica: “Há muitos criadores comuns no TikTok impulsionando o ressurgimento do que tínhamos em 2016–17.”
Sobre o futuro, Annan-Lewin resume bem: “O verdadeiro objetivo é chegar a um ponto em que [body representation] isso esteja tão incorporado que já não precise ser destacado.” De modo geral, uma mudança significativa não virá apenas de uma parte da indústria; ela exige um esforço coletivo em todas as áreas, de todos nós.