4 designers em ascensão contam o que realmente é preciso para lançar uma marca
Pauline Dujancourt, Masha Popova, Clara Chu e AGRO STUDIO revelam quanto custa começar e como entrar oficialmente no calendário da fashion week.
Fashion Week na capital britânica gira em torno de criações subversivas e novos talentos. A temporada de Outono/Inverno 2026 em Londres acaba de chegar oficialmente ao fim — e entregou tudo em todas as frentes.
Nesta temporada, vimos a AGRO STUDIO apresentar uma coleção inspirada na vida selvagem, com pele de carneiro islandesa e tecidos tingidos à mão. Clara Chu fez sua estreia na LFW com uma coleção inspirada no elástico, enquanto Pauline Dujancourt criou um desfile etéreo em que as modelos literalmente pisavam em cascas de ovo. Esta temporada também marcou o Masha Popova primeiro show dela no line-up oficial desde que se formou pelo NewGen.
Conversamos com as quatro apostas em ascensão para saber como conseguiram entrar no calendário oficial, quanto dinheiro foi necessário e quais conselhos querem compartilhar. Siga lendo para conferir a entrevista completa.
Pauline Dujancourt
Quem é você e como entrou para a indústria?
AGRO STUDIO: Somos George e Angus; nossas iniciais se juntam para formar o nome da marca. Nós dois chegamos à moda por caminhos parecidos, embora tenhamos nos formado na London College of Fashion com alguns anos de diferença. Depois da faculdade, passamos muito tempo atuando em várias áreas da indústria, sem saber exatamente quando tudo iria realmente se encaixar. Trabalhamos com cinema e TV, auxiliamos stylists, assumimos trabalhos de produção e moda e tocamos projetos comerciais paralelamente ao nosso. Não era sobre esperar por um grande “big break”, e sim acumular experiência.
Depois da COVID, voltamos todo esse foco para a AGRO. Começamos com peças sob medida, sobretudo para performers e clientes VIP, e, a partir daí, fomos construindo a nossa própria linguagem visual.
Clara Chu: Sou uma designer de acessórios radicada em Londres, nascida em Hong Kong. Meu trabalho se concentra em transformar objetos domésticos do dia a dia em acessórios desejáveis. Minha formação é em moda feminina e acessórios, mas, durante os estudos, eu sempre experimentei além da moda tradicional, criando esculturas, móveis e trabalhando com referências que não eram necessariamente ligadas à moda, e sim ao design de produto e a objetos cotidianos.
Queria continuar explorando essa linguagem, então criei minha marca como uma forma de incentivar a cultura DIY e desenvolver peças com as quais as pessoas se identificassem, usando componentes que elas reconhecem do cotidiano.
Masha Popova: Sou uma designer baseada em Londres, e minha prática gira em torno de técnica e materiais, transformando básicos do dia a dia em algo único por meio de modelagem e construção. Estudei arquitetura primeiro, e amava o curso, mas queria algo mais manual, um meio mais expressivo, acelerado e em que eu pudesse realmente criar com as próprias mãos.
Eu não era daquelas pessoas que sempre sonharam em trabalhar com moda, mas sempre fui fascinada pela forma como as pessoas se expressam por meio das roupas. Também percebia o quanto eu me sentia mais confiante quando me vestia de determinada maneira. A moda parecia algo imediato e emocional, e me deu uma forma de construir um mundo em torno de uma ideia sem perder o foco no fazer manual.
Pauline Dujancourt: Tenho pais criativos que sempre me ensinaram a alimentar minha criatividade. No início, eu era totalmente focada em teatro, até que caí na moda — e me apaixonei. Me mudei para Londres [vinda da França] porque eu queria trabalhar com designers da London Fashion Week, que eu via como mais legais, emergentes e experimentais.
Clara Chu
Como vocês entraram para o calendário oficial da LFW?
AS: Esperamos até nos sentirmos prontos. Quando nos inscrevemos no calendário do British Fashion Council (BFC), já tínhamos um portfólio sólido, uma equipe enxuta e experiência em executar projetos complexos. Fomos aceitos na primeira tentativa, o que atribuímos ao fato de não ter apressado o processo. Naquele momento, já entendíamos as exigências criativas, financeiras e logísticas de apresentar nesse nível.
CC: Me inscrevi por meio do BFC e senti que esse era o momento certo para fazer o debut oficial da coleção. Como marca, vínhamos trabalhando em vários tipos de projetos — de instalações a iniciativas educacionais —, paralelamente ao desenvolvimento de produtos, então desfilar na LFW pareceu um passo natural e a plataforma ideal para reunir tudo isso.
MP: Me formei durante a Covid e me inscrevi em um Discovery Lab porque, sinceramente, eu só precisava de um motivo para continuar fazendo roupas depois da universidade, com um prazo real para cumprir. O timing foi perfeito, porque todo mundo, inclusive as grandes maisons, só podia apresentar digitalmente, então estávamos todos na mesma. Criei um pequeno conjunto de novos looks e os registrei em uma apresentação digital.
Em uma semana, várias lojas, incluindo a Ssense e a H. Lorenzo, entraram em contato para comprar a coleção. Para produzir tudo, me mudei para Ucrânia, montei um ateliê e passei a trabalhar de lá. Em 2022, me inscrevi no BFC NewGen e fui selecionada. Naquele inverno, começou a invasão russa em larga escala, e precisei abandonar tudo e voltar para o Reino Unido. Em setembro, apresentei minha primeira coleção de passarela completa no calendário oficial da London Fashion Week para a SS23.
PD: Me inscrevi no NewGen e recebi apoio do BFC. A partir daí, a marca começou a crescer, a ter mais presença no varejo e a ganhar visibilidade. Era muito importante para mim criar o universo da marca — a música, a atmosfera, a luz, etc. —, então os desfiles se tornaram uma forma de contar essa história por completo, por meio do cenário. Aliás, todas as peças levam o nome das mulheres que trabalharam na coleção; o trabalho delas é incrível, e eu queria homenageá-las.
Masha Popova
Quanto dinheiro é preciso para lançar uma marca de moda?
AS: Começamos sem nenhum investimento externo. Produzíamos todas as peças nós mesmos. Nossos pais não tinham como investir no negócio, então tudo veio de outros trabalhos, cujo dinheiro reinvestíamos em materiais e equipamentos. Houve meses realmente assustadores em que não sabíamos se conseguiríamos pagar o aluguel.
CC: Depois de me formar na Royal College of Art, me inscrevi em alguns concursos e ganhei um prêmio de acessórios de £10.000, que usei para lançar oficialmente a marca. Nos primeiros anos, não parei de me candidatar a bolsas, editais e programas de apoio financeiro.
PD: Acho que não é só sobre dinheiro. Claro que você precisa ter um pouco, sejamos sinceros, mas justamente no começo é que a falta faz você ser realmente criativo. Acho que nunca temos o suficiente, então use o que você tem e tire o máximo disso!
AGRO Studios
Que conselho você daria para uma pessoa que quer criar uma marca hoje sem dinheiro nem contatos?
AS: No começo, diga sim a tudo o que for razoável. Nós não protegemos tanto a nossa estética pessoal no início — e isso não serve para todo mundo. Primeiro construímos a rede de contatos e a base do negócio e, só depois, começamos a filtrar os tipos de trabalho que aceitávamos. Por quase três anos, recusamos pouquíssima coisa. Trabalhar em projetos muito diferentes nos ensinou como a indústria funciona, da produção aos orçamentos, passando pelo relacionamento com clientes.
Leve todo trabalho a sério, seja confiável e se comunique com clareza. Isso conta muito mais do que as pessoas imaginam. Você vai errar — e tudo bem. O progresso nem sempre é visível, mas o acúmulo de trabalho faz diferença. Nada que vale a pena cai pronto no seu colo.
CC: Simplesmente se jogue e procure as pessoas. Vá a eventos em que você possa encontrar criativos com a mesma energia, para aprenderem juntos ou somarem forças. Conheci fotógrafos e stylists com quem trabalho há anos em bares ou eventos. Manter-se conectada e construir relações genuínas e duradouras não é só divertido — é essencial.
MP: Antes de tudo, é difícil, mas não é impossível. Cerque-se de pessoas cujo trabalho você admira — e que admirem o seu também. A maioria das pessoas na indústria sabe o quanto tudo isso é duro, e muita gente vai te apoiar se você for séria e consistente. Você precisa de uma comunidade e de uma equipe; é quase impossível fazer tudo sozinha. E não se compare à trajetória dos outros: cada caminho é diferente. Foque em encontrar sua voz. Um ponto de vista forte costuma ser mais poderoso do que um orçamento enorme. Dá para fazer coisas incríveis com pouco dinheiro se você tiver as pessoas certas ao seu redor, que acreditem em você. E não se desanime se as coisas andarem mais devagar porque você não tem financiamento.
PD: Busque experiência, trabalhe para outras pessoas, observe e experimente funções diferentes. Assim, você entende como é ser gerida como funcionária e como é trabalhar em equipe — e, quando for criar sua própria marca, tudo isso vai parecer um pouco mais natural. Penso muito na época em que fui estagiária, agora que tenho uma estagiária no meu estúdio, e penso: “Ah, é assim que elas devem ver tudo isso!” Sou muito grata por essas experiências, porque acho que não conseguiria sustentar a marca sem elas. Nós nos formamos como criativos, não como empresários, então precisamos aprender fazendo — e isso é empolgante!
















